Menos é MAIS e o estudo da improvisação


Ao longo anos venho adaptando meus hábitos de estudo de acordo com as circunstâncias da vida. Talvez por causa da idade, mas também por escolhas profissionais diversas, e também devido a uma lesão no punho direito, uma prioridade cada vez mais forte na minha vida musical tem sido a qualidade e aproveitamento do tempo. Cada minuto que passo longe do meu instrumento musical é um minuto pensando em como posso aproveitar melhor aquele momento - cada vez mais raro - em que estarei junto com ele. Por isso, acabei incorporando um conceito que empresto da frase “menos é mais’, tão mencionada por aí. Na minha versão, “menos é mais” não se resume aos numerosos casos em que o improvisador está oferencendo informação demais ao seu ouvinte, seja na forma de notas, intensidade, volume, etc. Mas a idéia se expande para o “modo operante” do estudo de improvisação. Quando penso “menos é mais”, penso que quanto menos informação meu cérebro precisa processar, mais efetivo será o processo de memorização. O estudo da improvisação pode ser um dos mais amedrontadores para qualquer músico, pois ele parte do princípio de que você pode se utilizar de qualquer elemento da música para criar a sua mensagem musical. Muitos de nós, temendo a rejeição dos nossos ouvintes, entendemos isso como um atestado de que precisamos assimilar TODO o universo da música para poder improvisar com maestria. Não preciso citar fontes acadêmicas para afirmar que este caminho só pode gerar, no mínimo, muita frustração. Esse é o primeiro caso em que “menos é mais” se aplica. Esqueça isso de aprender TUDO. Aprenda apenas UMA coisa de cada vez. E escolha uma coisa bem simples. Procure definir um objetivo de aprendizado o mais específico possível e dedique seu tempo valioso no alcance dele.

Na prática, o conceito serve para todos os níveis de experiência: desde os iniciantes até os músicos mais avançados. Se você está começando, pegue aquele primeiro exercício (ou trecho de música) que você recebeu do seu professor, e liste todas as habilidades e objetivos que você pode desenvolver com ele:

  • Coordenação da mão esquerda

  • Coordenação da mão direita

  • Coordenação das duas mãos ao mesmo tempo

  • Velocidade

  • Precisão rítmica

  • Timbre

  • Aquecimento

  • Dinâmica

  • Relaxamento

  • etc.

Agora escolha aquele que você julga o mais importante para alcançar o seu objetivo maior. Por exemplo: aprender a tocar acordes para conseguir tocar o repertório da banda com os amigos. Qual destas habilidades e/ou objetivos você considera mais importante para atingir seu objetivo maior? E entre os mais importantes, quais você possui mais aptidão e experiência, e quais você tem menos? As respostas a essas perguntas só você pode responder, mas elas normalmente se respondem sozinhas. Das mais importantes para o seu objetivo, escolha aquelas habilidades que você ainda tem dificuldade de assimilar, e use todo o seu foco para trabalhar isso. Pense em todas as maneiras que você pode modificar o exercício para torná-lo mais efetivo em relação à habilidade que você quer desenvolver. Isso pode até envolver a adição de algum elemento mas, normalmente, limitar o exercício vai lhe trazer melhores resultados.

Vamos supor que você recebeu o exercício 1234 do seu professor de violão ou guitarra e que você definiu que precisa dar prioridade ao desenvolvimento da precisão rítmica, pois percebeu que não consegue tocar o exercício junto com um metrônomo com facilidade. Pense em como limitar alguma parte do exercício pode lhe ajudar a alcançar o seu objetivo. Por exemplo, já que o objetivo é desenvolver a precisão rítmica, a princípio você não precisa utilizar todos os dedos da mão esquerda, certo? Que tal limitarmos o exercício para apenas o dedo 1 (indicador)? Agora você não vai precisar se preocupar com a passagem entre um dedo e outro (“menos é mais”) e poderá focar apenas no ataque da mão direita, dedicando toda a sua atenção para a precisão rítmica, o momento do ataque da mão direita. Você pode colocar um andamento bem lento no metrônomo, pois quanto mais lento, mais difícil de se acertar o ataque da nota com precisão (apesar de muitos pensarem o contrário!). Quando sentir que já dominou esta etapa (seja sincero consigo mesmo, os atalhos só vão fazer você perder tempo no futuro!) procure utilizar apenas os dedos 1 e 2 da mão esquerda, e pratique a mudança entre eles, mas ainda com o foco da sua atenção na precisão do ataque da mão direita na corda. Continue assim até fazer o exercício completo.

A probabilidade de você acabar fazendo o exercício completo com grande facilidade e precisão é muito grande, a não ser que você tenha sido impaciente e pulado alguma etapa (seja sincero!). E certamente você precisaria de muito mais tempo se fosse praticando o exercício inteiro a todo momento. Não tenha medo de modificar os exercícios, experimente e tire as suas conclusões. A conclusão é que, ao exercitar a precisão rítmica neste exercício, você estará automaticamente desenvolvendo a sua habilidade para utilizá-la em qualquer outro exercício ou trecho musical. Este é o verdadeiro atalho!

Para casos mais avançados, a máxima também vale. E vale muito mais. Vamos supor que você está se adaptando a uma escala nova. Os exercícios mais comuns vão exigir que você corra a escala de cima a baixo, visualize os desenhos formados pelo conjunto das notas no braço da escala, talvez você pratique alguns padrões melódicos em cima da escala. Como aplicar o nosso conceito? Novamente, pense em todas as habilidades e objetivos envolvidos no estudo dessa escala:

  • Você quer aprender a pensar nela mas rápido?

  • Quer simplesmente correr por ela com velocidade e precisão?

  • Você quer entender as possibilidades melódicas nela?

  • Quer saber exatamente onde ficam todas as notas da escala no braço do instrumento?

  • Quer entender o campo harmônico formado por ela?

  • Quer desenvolver outras coisas enquanto aproveita para praticá-la um pouco? (recomendo!)

Pense na quantidade de exercícios que você pode inventar para desenvolver cada uma dessas possibilidades. O céu é o limite! MAS… “menos é mais”, por isso você vai escolher apenas um aspecto de uma habilidade, e vai treiná-lo até virar um “expert”. Como a escala é nova, vamos explorar onde as suas notas ficam pelo braço da escala. Ao correr o braço do violão ou guitarra, você vai descobrir os “shapes”, mas não necessariamente associar o grau da escala com os seus lugares específicos no braço e, ainda mais importante, com o seu som! Por isso, uma sugestão à là “menos é mais” é: toque a escala em somente uma corda! Sim! APENAS uma corda! Assim você vai memorizar as notas da escala, vai entender os intervalos entre as notas e memorizar o som delas com mais facilidade. Tudo isso porque é mais difícil tocar uma escala assim, sem “shape”, pois você se obriga a escolher as notas pelo seu som. E não há maneira fácil de correr rapidamente por elas, o que vai lhe obrigar a apreciar mais o som de cada nota e a relação entre cada uma. Quando se sentir à vontade com a nova escala em uma corda só, escolha outra corda, ou adicione outra corda no seu escopo de possibilidades. Esse processo de limitação do foco de estudo vai lhe ajudar a memorizar e a aproveitar melhor o tempo que você passa com cada elemento dos seus estudos.

Procure aplicar o conceito nos seus estudos e performances, e aproveite os benefícios de um pensamento de studo objetivo e direto ao ponto. Deixe nos comentários as suas idéias de aplicação do conceito, e bons estudos!

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