Como começar a improvisar de forma eficiente e real?


O estudo e preparação para a improvisação musical pode petrificar muitos músicos talentosos devido ao escopo gigantesco das áreas do conhecimento musical que precisam ser dominados, se quisermos utilizá-los. Por isso mesmo, para muitos, pode demorar muito até que se sintam confortáveis para começar a estudar improvisação.

Porém, a ironia é que não existe um momento certo para começar, e não existem fundamentos necessários para se começar a improvisar. Basta improvisar! O que nos falta é enfrentar o medo de improvisar.

Convenhamos, não é fácil sair tocando um instrumento e criando um monte de belas melodias criativas, com timbre e acentuações perfeitos, ritmo impecável e aquela originalidade que faz todos pensarem na hora "ah! Esse som é tão 'Fulano'", e ainda por cima, tudo isso feito assim, de repente, totalmente de improviso. Por isso, é inevitável que nossas primeiras tentativas na arte da improvisação soem extremamente desagradáveis. É uma experiência que requer bastante humildade.

A primeira crença que eu quero que você esqueça agora mesmo é a de que um dia você vai improvisar com tanta naturalidade que tudo vai ser lindo, todos vão aplaudi-lo de pé e tudo isso vai acontecer sem nenhum esforço ou erro. O erros sempre acontecerão e cabe a você explorar e desenvolver as habilidades que o farão evita-los mais naturalmente. Mas eles sempre estarão lá. Faça as pazes com isso.

O que faz da improvisação ser tão apaixonante é exatamente o fato de todos nós sermos imperfeitos e que todos nós pensamos musicalmente diferente. E o que você quer realmente aprender com a improvisação é a tocar exatamente aquilo o que sua mente cria instantaneamente, e não o que todos querem ouvir.

Por isso quero sugerir a você algumas práticas que podem ser muito eficientes para se perder o medo de improvisar e para desenvolver suas habilidades de improvisação de forma objetiva e sem sofrimento.

1. O Gosto da Improvisação x Disciplina

Muitos de nós costumamos pensar que a disciplina é a mais importante habilidade para o desenvolvimento musical. É claro que a disciplina vai lhe ajudar a desenvolver muitas coisas, pois é melhor um músico disciplinado que pratica o seu instrumento forçosamente durante várias horas diárias do que um músico indisciplinado que não pratica nunca.

A intenção aqui não é diminuir a importância da disciplina, que deve sempre existir se você tem qualquer plano de médio a longo prazo, mas sim enfatizar a importância de uma auto-reflexão em relação ao que você realmente quer na sua vida e nos estudos.

Pense bem por que você quer estudar improvisação. Quais são os resultados deste estudo que são realmente importantes para você? Você está fazendo isto para saciar uma curiosidade instintiva ou você quer se ver "quebrando tudo" na frente de uma platéia? Talvez você queira impressionar amigos ou músicos conhecidos. Talvez você passe o dia inteiro escutando música e se emocionando com os improvisos de grandes músicos.

Não é minha intenção julgar nenhum desses motivos (apesar de que tudo aquilo que é feito para impressionar os outros só tem o poder de lhe trazer mais frustração...), mas é muito importante você fazer esse julgamento de si mesmo, com sinceridade.

Se você ainda julga importante aprender improvisação pra valer, então comece a estudar de maneira que o estudo seja sempre divertido e prazeroso. Se você consegue passar cinco horas diárias estudando música, legal! Mas se você passa cinco horas se divertindo com as descobertas da música e mesmo no fim da sessão (que você não viu o tempo passar) passaria mais cinco horas fazendo o mesmo tranquilamente, então você entendeu a diferença entre o gosto da improvisação e a disciplina de estudo.

Escolha o jeito prazeroso e divertido. Sua música, seu corpo e sua mente irão agradecer no futuro.

2. A Prática Holística Diária

Muitos pensam que basta praticar muito um instrumento musical para se improvisar bem. Eu discordo plenamente.

Eu gosto de pensar a improvisação (e a música como um todo!) como uma espécie de conversação. Existem perguntas, respostas, exclamações, declarações, discordância, concordância, etc. Tudo com uma outra linguagem que não é um idioma propriamente dito, mas que também tem os seus jeitos de expressar certos conceitos e emoções.

Praticar um instrumento é certamente uma maneira de se aprender um pouco dessa linguagem, mas é apenas uma maneira. Para um bom improvisador, ouvir música também é estudar improvisação. Para alguns, o movimento do corpo em relação a uma música também é estudar improvisação.

Seja qual for o seu jeito, procure aplicar conceitos musicais em outras atividades. Isso pode lhe trazer uma compreensão e conhecimento incríveis e ainda por cima pode ser muito divertido.

Por exemplo, se você sente que pode melhorar o seu "beat", deixe o metrônomo tocando por uns 5 minutos, e simplesmente ouça ele com atenção. A seguir, comece a girar os ombros, respeitando o tempo das batidas do metrônomo. Mova os braços em algum ritmo, colcheias por exemplo, ainda no mesmo andamento. Crie movimentos com outras partes do seu corpo e se divirta um pouco, aproveitando para relaxar. Logo depois, desligue o metrônomo e vá descansar um pouco, por uns 10 minutos.

Após os 10 minutos, comece a se mover exatamente como antes, tentando adivinhar o andamento sem ligar o metrônomo. Quando se sentir a vontade com o andamento, ligue o metrônomo e tome nota se você estava mais rápido ou mais devagar. Faça isso diversas vezes ao dia, com diferentes andamentos. Faça isso também com músicas! Associe movimentos corporais com o seu repertório.

Este é apenas um exemplo de algo que você pode fazer para desenvolver sua musicalidade sem precisar nem chegar perto do seu instrumento.

3. A Prática Instrumental

Antes de começar, sempre lembre-se disso: o seu instrumento musical é apenas um instrumento! O cérebro, a matemática, a técnica, as mãos, o corpo e as emoções são todos seus! Por isso sempre priorize desenvolver os seus problemas antes dos problemas do seu instrumento.

Apesar disso, o instrumento é uma ferramenta muito importante para o nosso desenvolvimento musical, seja qual ele for.

Para a prática da improvisação, o que nós precisamos desenvolver com o nosso instrumento é uma intimidade única: fazer que ele expresse exatamente aquilo que sua mente e seu corpo querem criar.

Para isso, é necessário um certo equilíbrio de expectativas. Você precisa ter um certo nível de intimidade com o seu instrumento para conhecer bem quais são os sons musicais que ele pode lhe oferecer. Quantas notas? Harmônicos? Articulações? Ruídos? Além disso, você também precisa se afastar desses "dados" e simplesmente experimentar outras maneiras de tirar sons dele. O seu instrumento pode ter toda uma variedade de sons que ninguém nunca explorou antes...

Assim como em casos entre pessoas, essa intimidade com o seu instrumento só poderá ser alcançada depois de passar bastante tempo junto. Vocês terão algumas brigas no caminho, mas siga firme e lembre sempre do primeiro ponto lá em cima.

Eu recomendo muito que você passe o máximo de tempo com o seu instrumento. A princípio, toque ele sozinho. Durante 10 minutos, explore seus sons e nunca julgue o que você está fazendo. Apenas explore e tome notas sobre tudo o que você descobrir. Essas notas podem ser muito valiosas no futuro! Grave seus experimentos em áudio sempre que puder. Isso vale para todas as práticas seguintes.

Nos próximos 10 minutos, experimente criar "pedaços" de música. Frases, riffs, acordes, grooves. Não precisa ser nada super sofisticado (não julgue!), apenas tente tocar o que a sua mente sugerir.

Depois disso, talvez seja a hora de usar alguns "ajudantes". Escolha um andamento qualquer e ligue o seu metrônomo. Agora você pode passar mais 10 minutos apenas criando coisas que se encaixam no andamento escolhido.

Depois do metrônomo, pode ser a hora de buscar alguma backing track, com algum groove de bateria, ou mesmo algumas linhas de baixo ou acordes de outro instrumento. Por enquanto é importante que não haja muitos acordes diferentes na backing track. Escolha alguma tonalidade (lá menor, por exemplo) e explore escalas, arpejos, acordes e tudo mais que possa funcionar com a backing track.

Ao passo que você vai se sentindo mais a vontade com seus experimentos, escalas, arpejos, acordes, articulações, dinâmicas, etc., aumente o grau de dificuldade harmônico. Ou seja, antes você brincou com uma backing track com um acorde de Lá menor, agora pegue uma com dois acordes diferentes, e experimente com eles o máximo que puder.

Esse processo pode, e provavelmente vai, demorar bastante. Apenas lembre-se de sempre se divertir com isso, descobrindo e registrando descobertas e idéias novas, para sempre sair de uma sessão de estudos com aquele gostinho de quero mais.

Vai chegar um ponto em que você vai conseguir se virar bem em uma música completa e mais complexa que apenas grooves em Lá menor. Não se preocupe demais com isso e tenha paciência. O que você está praticando aqui é sua habilidade de fazer música no ato, independente de ser simples ou complexa

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