Como escutar uma música?


Na última semana acabei lendo um livro chamado "How to Read a Book (Como Ler um Livro)" de Mortimer J. Adler e Charles Van Doren e fiquei impressionado com a quantidade de técnicas e estratégias que acadêmicos da área já experimentaram para se alcançar a melhor compreensão possível de um texto.

A leitura desse livro me fez compara-lo automaticamente com as técnicas e estratégias que nós utilizamos para escutar uma música e atingir o melhor nível de compreensão possível de uma fonte sonora.

A desvantagem do lado da música é gritante. Enquanto passamos anos na escola aprendendo a ler e recebendo acesso a literatura (não que eu esteja elogiando o ensino de leitura e literatura no Brasil, mas a diferença é enorme), não há sequer o total de um mês em todo nosso histórico escolar dedicados a apreciação musical. Desnecessário dizer que esta área da ciência e cultura foi deixada completamente de lado na nossa academia e do nosso dia-a-dia. No entanto, não seria totalmente inaceitável considerar que a grande maioria das pessoas do nosso país passa mais tempo escutando música do que lendo livros ou jornais. Eu fico imaginando qual seria o impacto social se todas essas pessoas pudessem entender um pouquinho mais sobre a música que escutam diariamente. Será que o mercado da música de massa seria diferente? Será que a importância e as funções que a música exerce na nossa sociedade seriam diferentes? Será que eu estaria escutando a mesma música que estou escutando agora e, consequentemente, uma visão de mundo igual se tivesse uma educação musical mais cuidadosa?

Eu acredito que sim.

Ler x Escutar

Quase sempre considero comparações entre o aprendizado de uma língua e o aprendizado musical muito pertinentes. Em "The Music Lesson", o baixista Victor Wooten compara o aprendizado de um instrumento musical com as etapas que nós passamos em nossa infância para desenvolver nossa comunicação através de nossa língua materna.

No começo, nossos pais, grandes mestres da língua (afinal de contas eles a utilizam tranquilamente sem precisar nem sequer pensar nisso), nos colocam em "jam sessions" no mínimo engraçadas, onde nós os ouvimos falar e tentamos balbuciar alguma coisa que soe parecido, sem o menor sucesso. Compare esse fato com um possível encontro musical entre você mesmo e alguns dos melhores músicos do mundo. Ou com qualquer músico mais experiente.

Ao longo do tempo, vamos aprendendo novas palavras, expressões e movimentos corporais que começam a fazer mais sentido em termos de comunicação. E ao mesmo tempo vamos ampliando nossas influências ao integrar "jams" com outros familiares, amigos e até mesmo desconhecidos.

Caso você se interesse mais pelo assunto, gramática e literatura serão estudados com afinco, e técnicas de expressão corporal e discurso em público podem também ser exaustivamente trabalhadas. Independentemente disso, porém, você já é um mestre da comunicação.

Como que esse processo pode ser comparado com a compreensão musical? Nós também temos contato com músicos experientes e, principalmente, gravações da melhor qualidade. Por que nós também não nos tornamos mestres da comunicação musical naturalmente?

Uma das razões, na minha opinião, é a falta de "pais musicais", ou seja, alguém que esteja sempre junto nos guiando, corrigindo e nos colocando em situações de experimentação sonora. Infelizmente, a única forma de ter acesso a isso é nascer dentro uma família musicalmente treinada e experimentada que enxerga a educação musical como fundamental (assim como a comunicação verbal) para o desenvolvimento humano individual e social.

Se não for o caso, uma escola que tem as mesmas visões pode ajudar.

Se ainda não for o caso, você vai ter que procurar tal desenvolvimento sozinho.

Por isso resolvi aplicar alguns conceitos e técnicas de leitura básicos na forma de apreciação musical aqui neste post.

Leitura Elementar

Em "How to Read a Book", Adler e Van Doren citam 4 etapas necessárias para uma leitura objetiva de um texto: leitura elementar, de inspeção, analítica e sintópica.

Como somos iniciantes na arte de ouvir, nos importa apenas, por enquanto, aplicar as etapas mais fundamentais: a leitura elementar e de inspeção.

Na leitura elementar, existem outras 4 etapas que possibilitam o aprendizado da leitura:

A primeira etapa diz respeito aos sentidos básicos desenvolvidos na criança entre o nascimento até aproximadamente os 6 ou 7 anos de idade. Um desenvolvimento fundamental dos sentidos da visão e audição são fundamentais para a identificação dos símbolos que representam nossas letras. No caso da apreciação musical, o desenvolvimento da visão num nível básico é desnecessário. Mas a audição é definitivamente fundamental.

A memória também tem um papel fundamental em ambos os casos, já que precisamos interpretar significados em ambas fontes visuais e sonoras.

A segunda etapa consiste no aprendizado de materiais simples. No caso da leitura, é o começo da memorização do significado de palavras. No caso da música, a identificação de um trecho melódico curto e a altura das notas num nível básico: a nota identificada é mais aguda ou mais grave que a anterior? Nesta etapa já é possível a imitação e memorização de melodias simples.

A terceira etapa consiste num rápido progresso vocabular e no aumento da habilidade em descobrir significados de palavras desconhecidas através de contexto. Além disso, nesta etapa, a criança começa a entender que existem diferentes motivos para a leitura e conteúdos de diversas áreas. É um pouco difícil aplicar esta etapa ao aprendizado musical, mas considerando-se a nova habilidade de perceber uma diversidade de conteúdos, nada mais aceitável do que a exposição a diferentes escolas de estilos musicais. Ao mesmo tempo, nesta etapa, seria importante começar a identificar as relações das sonoridades melódicas com a harmonia por trás delas. Além disso, o vocabulário melódico também deve se expandir, e junto com ele nossa habilidade em identificar alturas com mais detalhe.

A quarta etapa da leitura elementar é caracterizada pelo refinamento das habilidades adquiridas anteriormente. A partir de agora, o estudante é capaz de assimilar conceitos e compara-los a outras fontes. Talvez a melhor comparação com o desenvolvimento da apreciação musical seja a identificação de traços individuais entre intérpretes diferentes. Além, é claro, do refinamento das habilidades já mencionadas nas etapas anteriores.

Leitura de Inspeção

O segundo nível de leitura consiste na leitura propriamente dita. Note que, na nossa comparação com a apreciação musical, o nível elementar representa um tipo de proficiência que mesmo muitos músicos profissionais ainda não conseguem aplicar.

Existem dois tipos de leitura de inspeção. Ambos são aspectos da mesma habilidade, porém é importante considera-los como duas atividades separadas. O primeiro tipo de inspeção é a leitura leve, ou pré-leitura.

A pré-leitura serve para o leitor descobrir se uma análise mais refinada será realmente necessária. Nem sempre o material que escolhemos serve para o propósito planejado.

Os autores de "How to Read a Book" sugerem 6 passos para uma pré-leitura bem-sucedida:

1. Olhe para o título e, caso houver um, o prefácio;

2. Estude o sumário;

3. Cheque o índice;

4. Leia a descrição do editor;

5. Olhe os capítulos que aparentam ser os mais importantes;

6. Vire as páginas, ocasionalmente lendo um paragrafo ou outro.

Bom... Aqui a comparação com a fonte sonora da música começa a ficar um pouco vaga e talvez inútil. Aqui vale lembrar que existem críticas especializadas e análises de tudo que é obra musical por aí, e a leitura dessas pode nos ajudar muito.

De qualquer forma, é interessante localizar nessa lista de pré-leitura algumas idéias que podem nos ajudar a escutar uma obra musical com mais conhecimento.

Quando escutamos uma obra pela primeira vez, por exemplo, é importante focar nossa concentração em alguns aspectos que podem facilitar nossa compreensão do todo.

Vamos tentar uma comparação:

1. Analise o título da obra e, se possível, informe-se sobre o autor e a estrutura da obra (em que circunstâncias foi composta ou gravada);

2. Procure entender a forma da música. Esse é o esqueleto de qualquer obra musical. Quanto mais você entender e identificar as formas, menor é a chance de você ficar perdido;

3. Identifique as seções da música e suas características. Há repetições? Mudanças de tonalidade? Improviso? Que instrumentos estão sendo tocados a cada momento?

4. Identifique a relação entre as introduções, as primeiras partes e o desenvolvimento da música;

5. Siga a ordem das músicas. Elas têm uma ordem por uma questão de continuidade;

6. Se você não conseguir identificar alguma coisa, não se preocupe. Essa é uma primeira apreciação, muita coisa vai passar despercebida.

O segundo tipo de leitura de inspeção é a leitura superficial. Todos nós já passamos por uma situação quando, ao ler um livro de conteúdo muito complexo, cansamos e desistimos de ler. A razão pela qual isso acontece, segundo os autores de "How to Read a Book" é que nós passamos muito tempo tentando entender palavras e expressões de difícil entendimento e acabamos nos frustrando rapidamente sem ter lido quase nada.

Por isso, uma leitura superficial e rápida pode ser muito vantajosa. Após uma leitura despreocupada, o leitor passa a entender o conteúdo do livro como um todo, mesmo sem ter prestado atenção em detalhes. Numa segunda leitura, esses mais focada, esses trechos difíceis farão mais sentido e o trabalho de decifrar novos conteúdos específicos passa a ser muito mais leve, resultando numa melhor compreensão e menos cansaço.

A aplicação disso para o mundo da música é muito mais fácil. Uma "escuta superficial" é muito próxima do que nós já estamos acostumados a fazer. Levando em consideração que os passos das etapas acima foram respeitados, após uma escuta superficial, fica muito mais fácil identificar detalhes de composição e performance.

Por exemplo, numa escuta superficial, há tempo para entender a forma da música e quais instrumentos estão sendo utilizados. A partir daí, numa segunda apreciação (caso você a julgue necessária), você terá a liberdade de focar sua atenção em outros aspectos, como as funções e detalhes de cada instrumento, ritmos, dinâmicas e etc.

Espero que essa comparação com a leitura de livros possa vir a ser útil no seu dia-a-dia musical. Os benefícios de uma apreciação ativa podem ser muito maiores do que estamos acostumados a acreditar.

Procure aplicar as mesmas estratégias para a apreciação de diferentes fontes de informação e entretenimento. Será que elas podem ajudar você a entender melhor um quadro de Picasso? Ou a arquitetura do centro da sua cidade? Será que você consegue tirar um novo significado sobre as mesmas coisas e pessoas ao seu redor?

Comente aqui em baixo sobre a sua experiência e se essas etapas da apreciação lhe ajudaram de alguma maneira.

Grande abraço, até a próxima!

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