Estudar Harmonia

Nas últimas semanas, algumas pessoas demonstraram interesse em fazer aulas de harmonia comigo, mesmo sem eu ainda não ter oferecido tal aula. Isso me fez pensar em como conseguir fazer com que alguém que ainda não tenha nenhuma experiência com o assunto comece a pratica-lo e entende-lo melhor logo numa primeira conversa.

Compreender harmonia não é simples, mas também não é tão difícil como muitos imaginam. O grande problema é que, como é um assunto bastante mistificado, muitos optam por procurar materiais muito complexos sem antes ter uma boa base de teoria musical. É, fica difícil ter facilidade com harmonia sem entender bem conceitos básicos como intervalos, formas, ritmo e formação de acordes e, principalmente, saber identificá-los apenas ao ouvi-los.

Todos esses conceitos de teoria básica já foram ou ainda serão discutidos com mais atenção aqui no blog.

O Campo Harmônico

O ponto de partida para se compreender melhor músicas do ponto de vista harmônico é ter os campos harmônicos maiores e menores bem memorizados. Eu não gosto muito de sugerir memorização e escrita para nenhum estudo musical, mas nesse caso é muito importante reconhecer facilmente os graus de cada escala, seus intervalos e qualidades de acordes diatônicos. Existem centenas de materiais disponíveis por aí que exibem essas relações de forma muito mais clara do que eu seria capaz de demonstrar aqui.

Portanto qualquer exercício de escala, acordes e arpejos que você faça para facilitar o seu entendimento do campo harmônico vai lhe servir muito bem. Eu me lembro que, no início dos meus estudos, eu achava que o estudo do campo harmônico escondia algo mágico por trás desses exercícios clássicos de escalas. Um dia a ficha iria cair e eu iria entender harmonia e finalmente me livrar das escalas e arpejos.

Nada disso. O campo harmônico é tudo o que você precisa saber sobre harmonia. Mas é preciso sabe-lo muito bem. Por isso, seu esforço deve estar focado em memorizar os acordes e intervalos de cada campo harmônico em todas as tonalidades. É um trabalho infinito que vai ficando cada vez mais simples na medida em que você memoriza uma nota ou acorde a mais.

Comece pela escala maior de Dó. Nada mais fácil, né? Dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó! Entenda os intervalos entre cada nota, e memorize cada grau da escala. Depois monte as tríades superpondo terças em cada grau. Toque, cante, escreva e memorize cada acorde e sua respectiva relação ao grau da tonalidade. Adicione a sétima, toque no seu instrumento, repita tudo, e memorize.

Acabou? Que nada! Só começou. Se você conseguiu fazer tudo isso em um dia, pode se dar os parabéns, porque "só isso" já é trabalho pra caramba! De qualquer forma, a chance é muito grande de, no dia seguinte, você não lembrar da maioria das coisas. Repita tudo de novo. Faça todo o processo em todas as tonalidades, e não esqueça de fazer o mesmo nos três campos harmônicos menores.

É por isso que a harmonia é um assunto tão temido: é muita informação!

Não se preocupe. Faça uma coisa de cada vez e não dê passos maiores que a sua perna! Paciência e humildade são as regras desse jogo!

O Ouvido Harmônico

De longe, a forma mais eficaz de entender harmonia hoje em dia é ouvindo músicas tendo consciência clara de que acordes estão sendo tocados a cada instante.

Escolha uma música, encontre as cifras e perceba a sonoridade de cada acorde. Acompanhe com atenção cada mudança de acorde. Se possível, toque os acordes no seu instrumento.

A seguir, toque as fundamentais de cada acorde (normalmente o contra-baixo toca essa nota antes de qualquer outra). Se acostume com esse som, cante essas fundamentais, primeiro com a ajuda do instrumento e depois sem.

A partir daí o seu estudo dos campos harmônicos se faz muito útil. Identifique na música todas as progressões de acordes que você já conhece, como por exemplo o V - I. Anote os graus que você consegue identificar, e anote os acordes que você não consegue identificar, eles provavelmente não devem ser diatônicos em relação a tonalidade da música. Identifique o tom da música.

Esse processo de identificação é a base para começar o que chamamos de análise harmônica. A análise serve para entender a estrutura harmônica por trás das notas e acordes, independentemente da tonalidade da música. Quanto mais à vontade você estiver com esse processo, mais fácil será o processo de transposição (mudar o tom da música) e de reconhecimento de acordes numa primeira escuta.

Teoria X Prática

Nem sempre será fácil explicar as razões para um acorde estranho à tonalidade da música estar presente. Existem muitos casos em que diferentes profissionais podem discordar em relação a função harmônica de um ou outro acorde. A harmonia tonal não é uma ciência perfeita, embora muitos teóricos procurem ajustar e re-interpretar números para justificar uma visão de que a música ocidental seria "natural" e de acordo com as relações matemáticas mais puras. A música tonal foi e continua sendo desenvolvida por culturas extremamente complexas e imperfeitas. O som tonal pode soar "perfeito" e consonante para os nossos ouvidos, mas com certeza ela não é considerada e julgada igualmente por outras culturas acostumadas com outros sons.

Tendo dito isso, procure entender os acordes conforme a sonoridade que chega a você, e não segundo regras escritas por outros. Mesmo assim, é sempre bom estar atento às diferentes teorias e interpretações. Sempre há alguma coisa que pode confirmar as nossas impressões ou refuta-las. Melhor ainda, podemos mudar de idéia e começar uma nova forma de escutar os mesmos acordes.

Acredito que estas seriam as melhores formas de lidar com o estudo da harmonia.

É importante entender que o entendimento da música está, antes de mais nada, no seu ouvido e na sua mente. Se você consegue se lembrar facilmente da sonoridade de uma progressão de acordes sem nenhuma referência externa, você já entendeu como a harmonia funciona, mesmo sem saber dar nome a nada. Continue memorizando diferentes progressões e logo você terá domínio e consciência de um assunto que é tão temido pelos estudantes de música.

Espero que você tenha gostado deste post e que lhe sirva de ajuda e motivação para seguir em frente nos seus estudos musicais. Fique a vontade para comentar e tirar qualquer dúvida.

Até a próxima!

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